quinta-feira, 21 de junho de 2012

O que eu fiz com a pedra que tinha no meio do caminho



Tinha uma pedra. Sim, no meio do meu caminho. E eu, desastrada e distraída, tropecei.

Ralei o joelho. Doeu. Sangrou. Passei o dedo e ardeu. Olhei para o sangue no chão. Cheguei pertinho. Vi-me refletida de vermelho e vinho, coagulando a minha imagem enquanto a pedra ria da minha miséria.

Falei baixo para ela “Não doeu tanto assim”. Mas era uma pedra especial, que lia pensamentos. E ela me disse, sarcástica e feia “Eu sei que doeu”.

A pedra e eu em um discurso chato, onde ela insistia que era eu que tinha entrado no caminho dela. “Mas pedra não tem caminho, a pedra é o caminho”, argumentei enquanto ela estremecia ao me ver tão de perto.

“Continua a andar, tola”, ela repetia como se quisesse me tirar dali depressa. “Claro, claro”. Levantei-me rápido. Tirei a poeira dos joelhos e continuei a caminhada. Tinha uma pedra no meio do caminho. Aí eu a chutei para o cantinho e continuei a andar.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Talvez ela fosse louca



De tanto estar errada, acabou estando certa. Porque para ela, não parecia diferente nem estranho, mas para outros era, e muito.

Sem arrependimentos, foi lá e fez de novo. E de novo. E de novo. Depois que descobriu que era errado, fez pela última vez para ter certeza.

Fora daquele mundo onde sua existência era estranha, ela pôde observar como certos e errados entram em conflito sem nem mesmo saber que aquilo é só um ponto de vista.

Para que não soubessem que discordava de tudo, jogou fora fotos, registros e avisos. Mas só por uma semana. Porque na outra, ela partiu depois que arrumou suas coisas dentro de uma mala onde mal cabiam seu coração e os tentáculos de sua memória.

Deixou tudo pra trás, inclusive os certos, os errados e os estranhos. Senso comum nunca a atraiu. E era para longe dali que ela arrastava suas coisas.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Aviso


Acorda. Arruma a cama. Leva o lixo pra fora. Faz o café. Toma o café. Lava a xícara. Põe a preguiça de lado. Toma um banho. Lava o rosto. Tira a sujeira. Limpa a decepção. Ensaboa o coração. Enxuga tudo. Muda de roupa. Penteia o cabelo. Escova os dentes. Coloca um sorriso. Esquece a chave. Volta pra buscar a chave. E busca também aquela sua pasta cheia de elogios. Bate a porta. Cobre a cabeça. Está chovendo. Reclama um pouquinho. Espera debaixo da marquise. Vê a vitrine da loja. Pensa que quer aquela calça. E depois desiste. Anda debaixo da chuva. Esquece que queria a calça. Pega o dinheiro no bolso. Entra dentro do ônibus. Deixa a moedinha cair. Deixa ela lá, ela não vai fazer falta mesmo. Dá licença para o senhor sentar. Ele precisa mais do que você. Faz o que você tem que fazer. Fica cansado. Volta pra casa tarde. Liga a tevê. Desiste de ligar a tevê. Bebe água. Vai dormir. Depois se lembra daquela calça. Depois se lembra da pasta de elogios que voltou vazia. Depois se lembra do sorriso que você colocou e se esqueceu de tirar. Depois pega no sono. Acorda.

domingo, 10 de junho de 2012

O sol e o céu


Eu gosto do sol. Não gosto da nuvem. Nem do inverno. Nem da chuva. Eu gosto do calor.

Pisei no concreto da rua sem esperar alguma coisa, mas era o sol que, mesmo fraquinho, me fez agradecer por estar ali comigo.

As nuvens estavam lá, vilãs daquele dia que podia ser bonito. Querendo acabar com o calor do sol e com o meu calor também. Ameacei a tirar o casaco e o sol fugiu. Ou será que as nuvens que, brincando de pega-pega, resolveram aprisioná-lo? A brincadeira começou a ficar legal de novo, porque o sol me disse: “Está na hora de tirar o casaco”.

Molhei a sola do sapato com a poça d'água formada no dia anterior. O sol prontamente se ofereceu: “Não se preocupe. Eu seco pra você”.

O vento atrapalhou meu cabelo e meu vestido enroscou na minha perna. Percebi que algo estava errado. De longe, olhei para o céu que estava triste de novo, sem seu amigo sol e com as nuvens invejosas que, do seu lado, bradavam: "Se não for agora, vai ser depois".

Tristonho, o sol saiu de cena e deixou o céu. Me deixou.

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