sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A aura de Lady Gaga e o fim da ArtRave


A era ARTPOP chegou ao fim essa semana, com o último show da ArtRave, a turnê de divulgação do último CD da Lady Gaga. Aproveito para postar a crítica que escrevi pra aula de Jornalismo Cultural sobre uma das músicas que acho mais sensacionais da carreira dela, Aura.

A AURA DE LADY GAGA

“Aura” é a música que abre o último álbum de estúdio de Lady Gaga, intitulado “ARTPOP”. A canção foi um dos primeiros materiais do CD que caíram na internet antes de sua divulgação começar de fato. Sua versão não-finalizada tinha o nome de “Burqa” e Lady Gaga usava entonações diferentes em alguns versos. A música chegou até os fãs por intermédio da própria cantora. Sua intenção era antecipar a divulgação do álbum, que se encontrava em dificuldade devido à burocracia da gravadora. A versão finalizada teve o nome alterado, talvez para evitar uma polêmica com as culturas conservadoras que têm a burca como vestimenta. A mudança nas entonações talvez possa ser explicada pelo fato de que a música precisava ter mais apelo comercial.

Aura convida o ouvinte a se aproximar da caixa de som e parar para escutá-la. O que Lady Gaga está querendo dizer com ARTPOP? O nome soa muito pretensioso. Como assim ela quer misturar arte e pop? O violão sendo tocado rapidamente nos primeiros segundos intriga. A cantora parece recitar falas que não são dela. O instrumento ganha ainda mais destaque e Lady Gaga solta uma gargalhada como se quisesse dizer: “Esse álbum vai ser uma grande e irônica festa”.

A primeira parte da música explode em batidas psytrance – o heavy metal dos DJs – típicas de um dos produtores, o duo Infected Mushroom. A subcategoria do gênero musical eletrônico traz bateria e sintetizadores, elevados a um ritmo ao mesmo tempo insano e psicodélico, que ficou famoso por ser tocado nas chamadas festas rave. “I’m not a wandering slave, I am a woman of choice” – “Eu não sou uma escrava sem rumo, eu sou uma mulher de escolha”. Lady Gaga revela no que estava preocupada quando escreveu a música: “Aura” é sobre ela mesma e sobre todas as mulheres. O caráter feminista fica claro. Lady Gaga é certeira ao falar de um tema que tem se abordado tanto, em meio a discussões no mundo inteiro sobre direitos humanos.

A letra, escrita pela própria em parceria com o duo de produtores e o DJ Zedd, também produtor, segue falando sobre a liberdade sexual da mulher. Lady Gaga se empresta como personagem: “Do you wanna see me naked, lover?” – “Você quer me ver nua, amor?” – é a frase que inicia o refrão. Surpreendentemente, Infected Mushroom sai de cena e dá espaço às batidas eletrônicas suaves de Zedd, introduzindo o house melódico ao refrão. “Do you wanna see the girl who lives behind the aura?” – “Você quer ver a garota que vive por trás da aura?” – ela canta.

O psytrance volta para acompanhar a segunda parte da música. Agora Lady Gaga usa uma metáfora, a burca, que antes dava nome à música. A vestimenta mais rígida e polêmica do oriente não é criticada. “She wears burqa for fashion” – “Ela usa a burca por moda”. Ela clama pelo direito de usar a roupa que quiser, se cobrir, ou se descobrir – nos dois sentidos da palavra. Aqui pode-se ouvir o ápice do uso do auto-tune. O recurso de edição modula os vocais e faz com que eles atinjam afinação perfeita. As críticas em torno do seu uso são várias, mas aqui Lady Gaga o usa por puro estilo. Sua capacidade vocal é incontestável e já provada diversas vezes. Os versos que a artista canta são ART, o auto-tune é POP.

Quando pensamos que o ritmo vai diminuir e poderemos ouvir de novo o suave porém poderoso refrão, Lady Gaga pausa. Ela recita: ”Dance. Sex. Art. Pop. Tech” – “Dança. Sexo. Arte. Pop. Tecnologia”. A resposta que procurávamos no início da música está aqui. É sobre tudo isso que o álbum ARTPOP fala. É isso o que ele é. É isso o que ela é. O refrão chega de novo e, ao final dele, ela se atreve a dizer “Do you wanna see the girl who lives behind the burqa?” – “Você quer ver a garota que vive atrás da burca?”

O fato de Lady Gaga trazer à tona um assunto delicado e pouco tratado no mundo da música pop, já num primeiro momento de seu disco, revela não só a importância de Aura e do ARTPOP, mas do pop como um todo. O pop é um transformador de ritmos. Nele, é possível encontrar elementos do punk, da música clássica, dos ritmos latinos e mais uma infinidade de instrumentos e combinações. Ele acaba se tornando uma mistura de tudo. Sua função é tornar “escutável” cada um desses elementos, fazer com que qualquer um se identifique com um instrumento, mesmo que esse não seja do seu conhecimento. Ele não se propõe a perpetuar uma tradição ou inventar algo completamente novo, mas, sim, transformar o que já existe. O fato de ser altamente comercializado não diminui sua importância – aliás, a aumenta. A acessibilidade musical que ele propõe torna-o propagador de ideias. Por agregar tantos ritmos e estilos, pode também trazer uma variedade de assuntos nas suas letras.


Isso, Lady Gaga faz com maestria, especialmente em Aura. Incorporar elementos musicais diferentes – um instrumento de corda com ares latinos e a música eletrônica – e iniciar o debate sobre o feminismo revelam-se como a intenção da música. A cantora criou um grito de guerra. O final é marcante. A voz robótica diz “Art. Pop.” É como se Lady Gaga dissesse: “Isso tudo é arte e pop ao mesmo tempo. Se você continuar escutando, é mais disso que você vai ouvir”.

2 comentários:

  1. Deu até vontade de ouvir Aura de novo. Mandou muito bem!

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  2. Agora, com Lady Gaga tendo declarado que o ARTPOP foi como um ópio criado para ela aguentar o momento difícil que passava, Aura, que introduzia a sonoridade do disco todo, é ainda melhor compreendida!

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